Quais suas técnicas de pintura?
Eu misturo tintas acrílicas e canetas de tinta permanente, a técnica é louca: pego as telas, ou o que vou pintar, vejo o desenho e vou fazendo.
Segue uma tela mental?
Na verdade eu deixo fluir, quando pipoca eu paro e vou pintar outra tela ou vou dar um trampo no mato, na pista de bike, aí eu espero o fluxo de novo. Como diz meu amigo Pirata , vocalista do Anjo dos Becos: “funny e fluxo”.
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Buscando no fundo de sua memória, como foi sua primeira percepção de arte? De que ela existe!
Desde criança, muito pequeno ja desenhava com as canetas e lápis das minhas irmãs e ja rabiscava tudo pela frente, cadeiras, mesas, paredes o que desse pra rabiscar depois disso sentava em frente a tv e ficava desenhando os personagens dos desenhos.
Naquele momento teve a sensação de que seria um artista de fato?
Com sete anos numa feira escolar no anhembi ganhei um prêmio com um desenho, levei pra casa, caixas e caixas de canetinhas, lápis, papéis, etc.
Teve algum mestre envolvido?
Bom, na adolescência eu já comecei a me interessar por cursos de desenho, desenho publicitario e desenho artístico. Tinha um amigo que estudava na mesma escola que eu, chamava Carlos Delfino, ele já era um grande desenhista e me botava pilha pra desenhar.
Seu trabalho é bem característico, e nota-se uma certa mudança na pegada, vc esta mais perfeccionista do que antes?
Eu não sou perfeccionista, e sim detalhista demais! Gosto de passear muito tempo sobre uma arte e ir tendo milhões de idéias sobre ela. Por muito tempo me privei de deixar minha arte fluir, por estar ocupado demais, andando de bike, trabalhando com desgin grafico comercial. Muitas vezes medo de não agradar. Influências de artistas não tive direto, pois me senti sempre em obrigação comigo mesmo de no dia de fazer algo, ser algo totalmente meu, algo que eu via na natureza e que de certa maneira eu poderia reinventar, ou mostrar de formas diferentes.
Esse mundo que cria para vc, que não basta ser pra só para vc, ainda leva o espectador para dentro desse mundo. Se pudesse moldar a realidade e ter a criação em suas mãos, seu mundo seria muito fora do nosso hj? o que levaria daki?
Rsrsrs…Sabe aqueles filmes sobre o paraiso perdido que o cara atravessa um monte de lugar horrivel e chega num vale cheios de bichos, arvores, rios, cachoeiras e lagos? Tudo isso com as minhas cores! Eu só pego as cores e linhas da natureza e reestruturo da forma que minha cabeça vazia passa para minhas mãos, pois uso as duas mãos para pintar.
E quando vc aceitou tua arte? Esse “medo” de não agradar veio do incentivo de alguém ou vc se tocou que era bom na coisa?
Cara, passei anos me preocupando com os outros, com o que pensavam ou poderiam pensar sobre mim. Um dia descobri que tinha que fazer as minhas coisas como gostava e isso seria pra quem gostasse. Quem não gostar, provavelmente não foi pra ela que eu fiz aquilo.
O homem-folha cada dia ganha mais vida e mais fama. Acha que chegará uma hora em que ele se materializará frente aos seus olhos?
Cara na verdade acho que ele é a minha vida no futuro, rs. Vou reencarnar nele, virar planta de vez. Ele ja vem de boca amarrada pra não cometer canibalismo com as plantas semelhantes, se é que vc me entende rs…pois ele ja é resina pura!
Há muita mensagem codificada em sua arte. se prestarmos atenção vemos a natureza, o universo, energias, espirais…isso é uma forma de espelho do que vc tem vivido e percebido da vida até aqui?
Acredito num consciente coletivo, na verdade gosto de pintar coisas que de certa maneira tragam alegria, cor, o descompromisso com o real….é a simples viajem de uma mente.
Há uma certa experimentação de sua parte então? equanto pinta vc se descobre e realiza? tipo, vou ver até onde minha mente vai dessa vez?
Sim, eu olho pra peça e me pergunto o que vou fazer ali. Começo a riscar no lápis e daí pra frente seja o que Deus quiser.
Isso vale para qualquer material, é como a criança q citou rabiscando paredes, vale qualquer superficie?
Sim, essa semana customizei uma mochila da Ogio que vai pra uma exposição na Alemanha só de peças customizadas, fiquei quase um mês com uma mochila branca me assombrando, até o dia que sentei e larguei o braço em cima.
Pratica algum ritual, meditação, preparação pra comecar uma obra nova?
Cara não tenho ritual, sou doido. Passo na loja pego um monte de telas brancas e levo pra casa, tem vezes que ficam telas brancas por todos os lados e eu ali as olhando e pensando. Um dia chego , pego todas e rabisco as ideias…e aí vou fazendo muitas, às vezes quatro ou cinco telas , shapes , papeis ao mesmo tempo….
Pincel direto na tela, sem rascunho?
Primeiro desenho com um lápis invisível rsrs.
Você disse que sua princiapal fonte é a natureza, esse é conceito chave do seu trampo?
Com certeza…as cores, tudo! Muitas vezes me falam que eu misturo cores que são dificeis de misturar e manter um equilibrio, ai eu pergunto para elas: “vcs andaram em meio a trilhas de mato, florestas, mangues e só conseguiram ver o verde e o marrom? mas se colocamos nossa cabeça no foco MACRO vemos que , quem fez isso tudo sabe mexer muito bem com as cores.
Qual o lugar que gostaria de estar e juntar toda sua essência em uma atmosfera só?
Recebi um presente de um amigo esse ano. O cara me ofereceu uma cabana numa montanha pra eu morar e montar meu estudio, com direito a uma trilha de downhill para bike e vista pro mar. Estou onde pensei estar.
Você acha tudo isso fundamental para o seu trampo evoluir, ou a pincelada também saí num quarto no centro de sp?
Cara, sai sim, pois eu busco as coisas no interior. Na verdade, tudo que eu ja vivi e apreciei tá guardado, mas com certeza no meio do mato é melhor, tem mais espaço pra viajar. A questão é, se inspirar no meio, mas também saber como o meio não influenciar, é o equilibrio!
Você não é perfeccionista, o que é nativo em grande maioria de grandes caras da arte, e sim detalhista! Suas obras novas estão com riquezas incríveis de detalhes, e nos detalhes sua expressão é ainda maior. Como vc vê esse jogo de espelhos que auto-cria entre o espectador, vc e a arte?
Rsrss…gosto de mostrar ali o que passa na minha cabeça e de certa maneira colocar minha identidade lá. Faço arte para agradar as pessoas. Adoro quando vejo pessoas perdidas nos detalhes e procurando mais e se perdendo ainda mais dentro das minhas artes. Ja tive amigo que me disse que um dia achou que uma coruja que pintei estava saindo da tela pra cima dele e ele nem tinha tomado nada hehe….gosto das pessoas imaginando o que eu imagino!
Na época em que andava de skate, como foi qdo viu o primerio shape com teu desenho?
Esse foi meu primeiro Pro Model. Quando tive a oportunidade de lançar um model tinha que ter um apelo de mktg então tinha o Fernandinho Batman, eu soltei o Marcelo Barnero com o Coringa. Foi muito louco isso, pois eu ja era um skatista que pelo bom rolê que apresentava, vinha me destacando no skate e a cena nos anos 80 era tão louca que tinhamos empresas de skate nos bairros. Santana, foi um berço de muitos skatistas bons, havia um bairrismo muito doido naquela época.
Como foi na era em que era profissional?
Na verdade, nessa época já havia uma grande quantidade de skaters bons. Eu tava chegando e tinha que de alguma maneira marcar! Já tinha um skate explosivo e forte. Wall rides, ollies altos e tal e tinha o Trhonn, Fernandinho Batmam, Beto or Die, aí eu comecei como vertical. Na minha área sempre teve skate desde os anos 70. Os caras mais velhos do meu bairro me mostraram o skate, depois o Daniel Trigo irmão do Samuca me arrastou pro street, ali eu me encontrei, o Beto or Die virou irmão de role , consegui respeito dos caras dos outros bairros meio que desafiando eles na rua. Uma vez cheguei no ibira com mais uns camaradas pra andar, e os locais estavam pulando 6 skates um em cima do outro, eu chegava e colova 8 e pulava….
<< Beto or Die. Pôster publicado na Revista Skatin número 06, de 1989.
E rolava uns patrocínios e tals?
Tive patrocinios desde que comecei no street, corri muitos campeonatos locais na ZN em escolar e tal. Na rua ganhei alguns e depois de um tempo fiquei de saco cheio daquela histõria que tinha que ganhar, estar la na frente. Pensei que havia outro modo de atrair atenção e admirarção por mim e pelo meu skate. Eu tinha que vender shapes cada vez mais pra ganhar mais grana, pois ganhavamos em comissão por venda de shapes, então viajava sempre com varios na mala pra trocar os que quebrava e outros pra distribuir para moleques que andavam muito, mas não tinham condição de comprar um. Eu dava um shape pra um garoto numa cidade , depois de um mês meus patrocinadores falavam: “Pô, tá vendendo um monte em tal cidade. o que vc fez?
Vc sacava essa influência na época?
Eu sabia que era referência, sabia que tinha um produto no meu nome e que eu tinha eu influenciar. Até hoje com 40 anos encontro caras de 30 e poucos que fiz andar de skate.
Depois disso tudo, foi parar onde?
Chegou uma época que o skate caiu, eu ja era um cara quase adulto rs… e sempre trabalhei com artes gráficas paralelo ao skate. Fiquei bastante tempo trabalhando no mercado comum, fui gerente de marketing de uma empresa de eletrônicos que atuou no Brasa nos anos 90. Depois passei por algumas empresas de skate brasileiro, ou trabalhando com design gráfico ou com marketing esportivo.
E o surf brow?
As vezes brinco no mar, mas não acho o mar lugar pra brincadeira rs…posso descer qualquer montanha em cima de uma bike de dh , já andei de skate em pistas cabreiras, dei pulos enormes de bike e vôos de skate…mas o mar me deixa nervoso, a sensação de roupa na máquina de lavar me zoa quando rola a vaca rsrsrs..
<< Barnero voando no quintal de casa
Então pra fazer a cabeça vc anda se jogando montanha abaixo antes das telas em branco?
Quase todo dia irmão, fiz uma pista dentro de casa, com gaps de pedra, pulos de terra e tal, o terreno é gigantesco, literalmente uma montanha.
Falando de profissão, no trabalho de design gráfico a pegada é bem diferente em relação á arte. Muitos artistas não se dão bem o design pelas regras, fixação de conceitos, e acabam caindo fora. Como está sendo esse seu processo?
Eu ja sofri com o design, até o dia de perceber que design é igual técnico de futebol, todo mundo acha que é um pouco rsrsrs. Hoje em dia tenho alguns trabalhos de design ainda, faço uns freela, mas sei para quem vou fazer e para quem sabe como é meu método de trabalho rsrs.
<< Restaurante Niguiri em Floripa
Vai rolar uma exposição agora. Como será a parada?
Vou fazer uma expo aqui em Floripa no restaurante Niguiri que tem um puta espaço pra arte e me deram as datas de 15 de janeiro a 13 de fevereiro, que vai se chamar “Bichos das Minhas Viagens”, Irei expor 10 ou 12 shapes, algumas mochilas da Ogio customizadas e ainda não sei quantas telas, mas o espaço é enorme, to pintando até uma porta de madeira para por na entrada da expo, tipo um biombo com o homem-folha gigante segurando meu release.
Jogo rápido, se aliementa de quê??
Clorofila
Usa a internet para:
conversar e me informar
A sonzêra que faz a cabeça:
dub e hardcore
Um pico onde você não põe o pé:
Não ponho o pé na merda hehe
Como você vê o quadro que pintou de sua vida hoje?
Vejo como um quadro alegre e colorido
Uma frase/mesagem positiva que você diz a si mesmo e gostaria de compartilhar com a galéra:
Olha pra si e procure o que ha de melhor lá dentro , ao invés de procurar o pior dentro dos outros.
Qual é a sua arte?
Minha arte eu vejo como a maneira de mostrar pras pessoas no futuro que o mundo cinza que vivemos era colorido e equilibrado.
Marcelo, obrigado, pois além de viajar na arte, viajei também na tua historia, valeu mesmo!
hahaha

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